Tecnologia desvenda mistérios do crime

postado 11/04/2018 por

Avanços na detecção de DNA ajudam a identificar bandidos do PCC, e ferramenta de análise de dados acelera investigações da operação Lava Jato

 

Sequenciamento de DNA, identificação automatizada de impressões digitais e avaliação de bactérias capilares poderiam até ser técnicas usadas na medicina, mas atualmente compõem uma extensa gama de métodos voltados para a melhoria do combate ao crime e às investigações. As tecnologias forenses atuais têm avançado tanto nos últimos anos que parecem ter saído de filmes futuristas de ficção científica.

A arqueologia, passando pela astronomia, pela botânica, pela química, pela informática e até pela nanotecnologia, é um exemplo de área que acaba “emprestando” seus avanços tecnológicos para serem usados como ferramentas e recursos no trabalho da polícia para dificultar a ação dos criminosos. A interdisciplinaridade está na essência das ciências forenses, segundo o perito criminal federal, professor de criminalística da Universidade de São Paulo (USP) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Ciências Forenses (SBCF), Jesus Antonio Velho. “Tudo aquilo que existe de desenvolvimento tecnológico tem repercussão na perícia criminal”, afirma.
 
Um dos maiores avanços aplicados à ciência forense nos últimos anos foi a modernização na realização do exame de DNA, tornando a técnica mais sensível e permitindo identificar amostras antes desprezadas, como aquela com suor ou, ainda, restos de tecidos epiteliais encontrados em objetos em que o suspeito tenha apenas encostado.
 
“Recentemente, os DNAs achados em um cabo de barbeador, num gargalo de garrafa de cerveja, na bituca de um cigarro, numa toalha, em uma xícara e em um pedaço de papel higiênico usado levaram a Polícia Federal a identificar sete membros da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) que participaram do assalto à empresa de transporte de valores Prosegur, em Ciudad del Este, no Paraguai”, afirma Velho.
 
No entanto, o grande sonho de desenvolver um teste de DNA portátil ainda desafia os cientistas, segundo o presidente da Academia Brasileira de Ciências Forenses (ABCF), Hélio Buchmüller. “Já existem equipamentos que permitem a obtenção do perfil genético de uma amostra biológica em poucas horas, mas ainda em condições limitadas, que inviabilizam o uso rotineiro, em especial com vistas à inserção em banco de dados”, afirma.
 
Velho cita outras duas ferramentas forenses desenvolvidas que revolucionaram as atividades periciais. Uma delas é o Indexador e Processador de Evidências Digitais (Iped), desenvolvido principalmente pelo perito criminal federal Luís Filipi da Cruz Nassif, para agilizar a análise dos dados em função de demandas da operação Lava Jato. “O Iped torna possível identificar rapidamente arquivos eletrônicos definidos por palavra-chave de pesquisa em grande volume de dados, normalmente apreendidos em dispositivos de armazenamento, como HD, celular, pen drive, CD e DVD”, diz o professor da USP.
 
Outro exemplo citado por ele é o Sistema de Investigação de Movimentação Bancária (Simba). “É uma ferramenta que facilita a análise da movimentação das contas de um investigado. Antes, para realização de perícias financeiras, quando os bancos, por ordem judicial, apresentavam os extratos das contas bancárias por força de quebra de sigilo, o perito ficava meses somando. Com o Simba, todas as informações bancárias são disponibilizadas com muito mais precisão e rapidez, utilizando filtros e convertendo instantaneamente os dados bancários de interesse”, diz.
 
Edital da Capes incentivou pesquisas
 
Comemorado por especialistas, o edital Pró-Forenses, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), lançado em 2014, é considerado um marco para a pesquisa científica e a formação de recursos humanos nas ciências forenses, afirma o professor doutor de criminalística da USP, Jesus Antonio Velho.
 
Segundo o presidente da Academia Brasileira de Ciências Forenses (ABCF), Hélio Buchmüller, o edital disponibilizou, em 2014, recursos para 20 projetos de pesquisa. “Essa ação é um divisor de águas no Brasil. A comunidade de ciências forenses brasileira respondeu mostrando que ainda há muito a investir. Esse esforço deve ser continuado”, defende.
 
A ABCF organiza a cada dois anos o maior evento de ciências forenses da América Latina, a Interforensics, que em 2019 será realizada em São Paulo.

Quarta-feira, 11 de abril de 2018
Fonte: O Tempo

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