A perita criminal federal Dra Camilla Kafino é autora de um estudo publicado na revista científica Nature que reforça o uso de isótopos de estrôncio como ferramenta para determinação da origem de materiais, uma tecnologia com aplicações diretas na perícia criminal e no enfrentamento a crimes ambientais.

O artigo foi desenvolvido por um grupo internacional de pesquisadores, com a participação da perita da Polícia Federal, e apresenta, de forma inédita, uma base global padronizada com mais de 28 mil registros de dados de isótopos de estrôncio coletados em diferentes partes do mundo, incluindo amostras de solo, água, plantas e animais. O trabalho tem como objetivo reunir e organizar esse conhecimento em escala global, permitindo compreender como essa “assinatura” isotópica se comporta em diferentes ambientes.

Os isótopos de estrôncio funcionam como uma espécie de “impressão digital geológica”: sua composição está diretamente relacionada às características das rochas e do solo de uma região, sendo incorporada por organismos vivos e podendo ser utilizada para indicar a origem geográfica de materiais.

A participação da perita da Polícia Federal nesse estudo está alinhada à sua atuação no desenvolvimento e aplicação, no âmbito da perícia criminal, de metodologias baseadas em isótopos de estrôncio para determinação de origem de materiais, com destaque para madeira.

Na prática, a metodologia permite, por exemplo, investigar a procedência de madeira apreendida em operações contra exploração ilegal. Em um estudo aplicado ao pau-brasil (Paubrasilia echinata), espécie ameaçada e de alto valor no mercado internacional, a técnica foi capaz de identificar padrões regionais e até mesmo descartar hipóteses sobre a origem de determinadas amostras.

No âmbito da Polícia Federal, essa abordagem já vem sendo aplicada por meio de um método de confronto, que consiste na comparação entre a assinatura isotópica da madeira questionada e a assinatura da área de origem suspeita, obtida a partir de amostras locais de solo e vegetação. Essa estratégia permite avaliar, com base científica, se um material pode ou não ter se originado de determinada região.

Bases de dados em escala global, como a apresentada no artigo, representam uma etapa exploratória importante no processo investigativo, auxiliando na identificação de padrões e na indicação de possíveis regiões de origem. Esse tipo de informação é estratégico para orientar a investigação e se soma às abordagens de confronto utilizadas na perícia, contribuindo para a construção de conclusões mais robustas na resolução de casos concretos.

Para além da aplicação direta na área forense, o estudo também contribui para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas ao controle de cadeias produtivas, ao oferecer uma ferramenta científica capaz de conferir maior rastreabilidade a produtos de origem biológica.