O perito criminal federal José Alysson D. M. Medeiros lança este mês o cordel “O Perito Criminal e o Mistério dos Sentidos”, obra que propõe uma reflexão sobre acessibilidade, inclusão e atividade pericial a partir da linguagem da literatura popular. Publicado em formato acessível, com edição em braille-tinta, o material ganha destaque em alusão ao Dia Mundial de Conscientização sobre a Acessibilidade, celebrado este ano nesta quinta-feira, 21 de maio.

A publicação conta com o apoio da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) e dá continuidade à produção autoral de Alysson, que tem utilizado a literatura de cordel para aproximar a sociedade de temas relacionados à perícia criminal federal, à ciência forense e à cultura popular.

Nesta nova obra, o autor amplia o alcance da iniciativa ao investir em diferentes formatos de acessibilidade. Além da edição impressa em braille-tinta, o cordel também está disponível em PDF acessível, compatível com tecnologias assistivas, como leitores de tela, e conta com vídeo com interpretação em Libras e narração do próprio autor, permitindo que o conteúdo alcance públicos diversos.

A iniciativa também busca ampliar a circulação da obra em diferentes regiões do país. A proposta é mobilizar a presença nacional dos peritos criminais federais para apoiar a distribuição dos exemplares em seções Braille de bibliotecas brasileiras, fortalecendo o alcance social e educativo do projeto.

Cordel em braille-tinta

A edição em braille-tinta combina o texto impresso em tinta com a escrita em braille em relevo, possibilitando a leitura tanto por pessoas cegas ou com baixa visão quanto por leitores sem deficiência visual. O formato também exige uma edição física maior do que o padrão tradicional dos folhetos de cordel, geralmente impressos em tamanho próximo ao A6.

Segundo Alysson, a iniciativa surgiu após ele receber de um amigo o cordel “O ABC do Cuscuz”, de Gil Holanda, impresso em braille-tinta. A experiência despertou o interesse do perito criminal federal pela produção de materiais culturais acessíveis, especialmente em um campo ainda pouco difundido nesse formato, como a literatura de cordel.

“Depois, pesquisei mais e soube que havia carência de publicações culturais em braille, especialmente de literatura de cordel. Isso me motivou a escrever uma história que pudesse relacionar perícia criminal e reflexões sobre acessibilidade”, explica o autor.

O mistério dos sentidos

No enredo, uma equipe policial se desloca para atender um local de crime quando se depara com um homem cego caminhando pela calçada. A cena provoca reflexões sobre a atuação pericial e sobre a importância dos sentidos para a análise de diferentes vestígios.

Ao longo dos versos, o autor utiliza a narrativa para mostrar que a perícia criminal federal não depende apenas da visão. O cordel aborda, de forma didática, como tato, olfato e audição também podem ser fundamentais em diferentes áreas da atividade pericial, da documentoscopia à engenharia, da química forense à perícia ambiental, da análise audiovisual à biologia.

A obra também chama atenção para os riscos de uma percepção limitada dos fatos. Ao relacionar acessibilidade e ciência forense, Alysson propõe uma reflexão sobre a necessidade de reconhecer limites, interpretar vestígios com método e recorrer à ciência para alcançar a verdade.

“Todos, independentemente de suas limitações, merecem acesso a obras científicas e culturais. Poder lançar um cordel nesta data é importante para levar essa reflexão aos meus colegas policiais e ao público em geral”, destaca o perito criminal federal.

Acessibilidade, memória e distribuição

Além de abordar a acessibilidade como tema, o cordel também busca praticá-la em sua própria forma de circulação. Exemplares da obra já foram distribuídos a diferentes instituições e bibliotecas, entre elas a Biblioteca do Espaço Cultural, o Instituto dos Cegos do Nordeste, em Campina Grande, o Instituto dos Cegos da Paraíba Adalgisa Cunha, a Escola Estadual de Educação Especial Ana Paula e a Biblioteca da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

A edição traz ainda uma seção de curiosidades sobre Louis Braille, criador do sistema de leitura e escrita utilizado por pessoas cegas, ampliando o caráter educativo da publicação.

As ilustrações são assinadas pela xilogravurista pernambucana Maria Edna da Silva (Edna), parceira recorrente nos trabalhos de Alysson, cuja arte dialoga com a tradição estética do cordel nordestino.

Com “O Perito Criminal e o Mistério dos Sentidos”, Alysson reafirma a literatura de cordel como instrumento de divulgação científica, educação e inclusão. A obra destaca a contribuição dos peritos criminais federais para a produção de conhecimento e reforça que a acessibilidade também passa pela democratização do acesso à cultura, à informação e à ciência.