A capacidade de identificar conteúdos falsificados por inteligência artificial e proteger a confiabilidade da prova pericial esteve no centro dos debates do Eixo Desafio do III Seminário APCF, intitulado “Ataques Adversariais e Forense de Vestígios Sintéticos: A Ciência contra a Fraude”. Especialistas discutiram como a evolução dos deepfakes, das identidades sintéticas e dos ataques a sistemas de IA tem criado novos desafios para a investigação criminal, exigindo métodos cada vez mais sofisticados para verificar a autenticidade de imagens, vídeos, áudios e documentos digitais.
O debate foi realizado nesta terça-feira (9/6), na sede do Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília, com transmissão online. Moderada pelo perito criminal federal Mateus de Castro Polastro, a mesa reuniu representantes da Polícia Civil do Distrito Federal, da iniciativa privada e da academia para discutir os impactos dos conteúdos sintéticos sobre a produção da prova técnica, os riscos associados ao uso malicioso da inteligência artificial e as estratégias para fortalecer a confiança nas evidências digitais.
Ao abrir o debate, Polastro destacou que os vestígios digitais estão presentes em praticamente todos os tipos de investigação e que a popularização de ferramentas generativas mudou o grau de exigência técnica imposto à perícia. Segundo ele, já não basta recuperar um vídeo, áudio, imagem ou documento apagado de um celular ou computador. É preciso compreender se aquele conteúdo corresponde a um registro autêntico ou se foi gerado artificialmente.
“Hoje em dia a gente tem uma nova camada de complexidade, que é exatamente saber se esses vestígios digitais — voz, vídeo, imagem e outros — são reais ou não. Não basta saber que estavam na máquina ou no celular de uma pessoa. É preciso começar a entender se aquilo é real ou se foi gerado sinteticamente”, afirmou.
A mesa contou com a participação do perito criminal da Polícia Civil do Distrito Federal Leandro, responsável pelo núcleo de inteligência artificial do Instituto de Criminalística da PCDF; do especialista em dados e inteligência artificial da Dell Brasil, Cláudio Pinheiro; e do professor Iwens Gervazio Ceni Júnior, da Universidade Federal de Goiás (UFG).
IA, crimes sintéticos e ataques contra sistemas
Na primeira exposição, Leandro apresentou a experiência do núcleo de inteligência artificial criado em 2023 no Instituto de Criminalística da Polícia Civil do Distrito Federal. Segundo ele, a unidade foi estruturada para estudar, desenvolver e aplicar sistemas baseados em IA em favor da criminalística, tanto no apoio direto aos exames periciais quanto na elaboração de laudos, na gestão interna e no suporte a investigações.
Entre os exemplos citados, o perito mencionou o uso de IA para análise de grandes volumes documentais. Em um dos casos, o núcleo recebeu um processo em PDF com cerca de 50 mil páginas, realizou a separação do material, aplicou reconhecimento óptico de caracteres e transformou o conteúdo em texto pesquisável, permitindo a extração de informações relevantes para a investigação. Leandro ressaltou que os sistemas são executados internamente, sem envio de dados para nuvens externas. Ele afirma que essa preocupação é essencial quando se trata de informações protegidas por sigilo e relacionadas a investigações criminais.
A apresentação também tratou do conceito de conteúdo gerado por IA e deepfake, a partir de referências internacionais como o AI Act europeu. O perito observou que, embora ainda haja discussões conceituais sobre o tema, a definição mais relevante para a perícia envolve conteúdos de imagem, áudio ou vídeo gerados ou manipulados por inteligência artificial, capazes de parecer falsamente autênticos.
O perito também apresentou um projeto em fase inicial desenvolvido pelo núcleo da PCDF para classificar imagens e indicar, por meio de mapas de calor, as regiões com maior probabilidade de manipulação. A ideia é que o modelo não apenas aponte se há indícios de geração ou alteração por IA, mas também demonstre quais áreas da imagem sustentaram a classificação.
Soberania de dados e infraestrutura segura
Na sequência, Cláudio Pinheiro apresentou a visão da Dell Brasil sobre a implementação corporativa e governamental da inteligência artificial. O especialista afirmou que a empresa tem trabalhado com o conceito de “fábrica de IA para governo”, estruturado para permitir o uso de diferentes naturezas de dados, priorizar ecossistemas abertos, reduzir custos com licenças e maximizar o uso de infraestrutura computacional. Ele destacou que, no centro dessa discussão, estão as GPUs, hoje um dos recursos mais demandados do mercado de tecnologia.
Para Cláudio, a adoção de IA pelo poder público deve combinar capacidade técnica, segurança e planejamento de longo prazo. Ele diz que as instituições públicas não conseguem simplesmente ampliar orçamento de um dia para o outro, o que torna necessário pensar em modelos sustentáveis, capazes de operar em ambiente local, em nuvem ou de forma híbrida.
O especialista também chamou atenção para a soberania de dados e de modelos de IA. Segundo ele, os países têm buscado desenvolver modelos próprios, nuvens regionais e estruturas capazes de reduzir a dependência de fornecedores externos. Em sua avaliação, modelos treinados por instituições públicas também devem ser protegidos, pois incorporam dados, métodos e formas de atuação específicas.
Pesquisa, Justiça e aplicações práticas
O professor Iwens Gervazio Ceni Júnior apresentou experiências desenvolvidas no Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA) da Universidade Federal de Goiás. Criado em 2019, o centro reúne universidade, governo e empresas em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação em IA.
Segundo o professor, o CEIA já fomentou centenas de milhões de reais em projetos e reúne pesquisadores, empresas parceiras e alunos do primeiro bacharelado em Inteligência Artificial do Brasil. O curso foi planejado em 2019 e lançado no Sisu em 2020. A proposta, de acordo com ele, é aproximar a formação acadêmica de projetos reais desde os primeiros períodos.
Iwens afirmou que o centro atua em diferentes áreas, como saúde, segurança, mobilidade, energia, comunicação e Justiça. Entre os exemplos apresentados, citou projetos de melhoria de mídias antigas, aplicações em carros autônomos, robôs humanoides e soluções para análise de imagens e documentos. Na área de segurança e Justiça, o professor destacou uma proposta desenvolvida a partir de demanda da OAB-DF para tornar mais seguro o parlatório virtual entre advogados e presos. A medida envolve técnicas de visão computacional capazes de verificar se os participantes estão olhando para a tela, identificar desvios de olhar e gerar relatórios e registros de sessão.
O professor também mencionou o desenvolvimento de soluções para identificação de desinformação, como ferramenta contratada pelo Tribunal Regional Eleitoral de Goiás para avaliar mensagens de áudio ou texto compartilhadas em redes sociais. Segundo ele, o sistema não declara de forma absoluta se determinado conteúdo é verdadeiro ou falso, mas fornece indicativos e direcionamentos sobre a probabilidade de se tratar de mensagem enganosa.
A discussão integrou a programação do III Seminário APCF, realizado pela Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) e pela Fundação Justiça pela Ciência, com o tema “Inteligência Artificial e o Futuro da Persecução Penal”.
O evento realizado pela APCF acontece nesta terça-feira (9/6) e quarta-feira (10/6) e reúne peritos criminais federais, magistrados, delegados, pesquisadores e especialistas para discutir os impactos da IA na produção da prova técnica, na investigação criminal e no sistema de Justiça.
As atividades do segundo dia serão voltadas ao público interno da Polícia Federal e inclui a inauguração do Laboratório de IA da Polícia Federal, seguida de workshop estratégico sobre o impacto social da IA na segurança pública e do showcase Forensic Pitch, mostra de projetos desenvolvidos por servidores de todo o Brasil com o uso de IA.


