A Polícia Federal (PF) inaugurou, na terça-feira (3/11), o Laboratório de Geoquímica Forense para Rastreabilidade Mineral, no Instituto Nacional de Criminalística (INC), em Brasília. Com a nova estrutura, os peritos criminais federais poderão analisar com mais precisão as características do ouro apreendido e verificar se elas são compatíveis com a procedência declarada nos documentos que acompanham o metal.

A diretora adjunta de Comunicação Social da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF), Mariana Mota Ferraz de Oliveira, representou a entidade na cerimônia. “A criação desse novo laboratório de Geoquímica Forense permitirá o aprimoramento dos exames periciais de materiais auríferos, ampliando a capacidade analítica”, afirmou Mariana, ao destacar que os novos equipamentos vão dar mais precisão às análises do ouro apreendido pela PF.

Resultado do trabalho da equipe do Programa Ouro Alvo, o laboratório está sob a gestão do Setor de Perícias em Geologia Forense (SEPGEO) do INC. “A inauguração desse laboratório representa um marco histórico”, afirmou o diretor técnico-científico da PF, Roberto Monteiro, ao falar sobre o avanço para a perícia criminal federal. Ele agradeceu àqueles que também idealizaram o projeto no passado e a atual equipe do setor, chefiada pelo perito criminal federal Erich Adam Moreira Lima, pela condução da aquisição dos equipamentos.

Como a perícia rastreia o ouro

O perito criminal federal Gustavo Caminoto Geiser, gerente do Programa Ouro Alvo, explicou que a equipe começou a desenvolver métodos de rastreamento em 2019. Naquele momento, as investigações passaram a demandar exames que ajudassem a verificar a procedência do metal e a confiabilidade dos documentos usados na sua comercialização. “Havia necessidade de se qualificar a Polícia Federal para comprovar os crimes de lavagem de ouro”, relembrou Geiser.

O laboratório já começa a operar com as coleções de referência da Ouroteca, acervo que reúne amostras de origem conhecida coletadas em garimpos ou fornecidas por mineradoras. Os peritos registram os perfis dessas amostras no Banco Nacional de Perfis Auríferos e os comparam com as características do ouro apreendido. Quando o exame revela incompatibilidade entre o perfil geoquímico do material aurífero e o da jazida declarada, seus resultados, analisados em conjunto com outros elementos da investigação, podem contribuir para descartar a origem informada e subsidiar inquéritos policiais relacionados a crimes minerários.

Triplo quadrupolo e novas análises

Um dos destaques do laboratório é o espectrômetro de massas com plasma indutivamente acoplado do tipo triplo quadrupolo (TQ-ICP-MS). O equipamento reduz interferências durante a análise e permite medir elementos químicos presentes em concentrações muito baixas. Esses dados ajudam os peritos a traçar um perfil geoquímico mais detalhado de cada amostra.

A estrutura reúne também um espectrômetro de massas multicoletor para análises isotópicas, um sistema de ablação a laser, que retira pequenas porções da amostra para análise, e um analisador direto de mercúrio. O laboratório conta ainda com uma microssonda eletrônica, um microscópio eletrônico de transmissão e um microscópio eletrônico de varredura com feixe de íons focalizado e espectrometria de massas de íons secundários por tempo de voo. Esse último sistema permite examinar a forma e a textura dos grãos de ouro e mapear sua composição química.

Monteiro Neto também destacou a importância das parcerias para desenvolver pesquisas e métodos de análise. Entre os parceiros, citou o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e a rede de conservação ambiental WWF. O UNODC foi representado na cerimônia por Alexander Walsh, coordenador da Unidade de Prevenção aos Crimes Ambientais.

Investimento do Fundo Amazônia

O Plano Amazônia: Segurança e Soberania (Amas), que apoia o Programa Ouro Alvo, conta com R$ 318,5 milhões do Fundo Amazônia. Desse total, R$ 49,7 milhões foram destinados à estrutura voltada ao rastreamento do ouro. O Fundo é gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em coordenação com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). O Ministério da Justiça e Segurança Pública coordena o plano, que articula ações de inteligência, investigação e fiscalização entre órgãos federais e forças de segurança dos nove estados da Amazônia Legal.

“Estamos chegando à COP31 com quatro anos consecutivos de redução do desmatamento”, afirmou Tereza Campello, diretora socioambiental do BNDES, ao destacar a atuação conjunta de órgãos federais e estaduais. Ela ressaltou que a redução ocorreu em um período de crescimento econômico. Segundo a estimativa divulgada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Amazônia Legal registrou 3.335 km² de desmatamento entre agosto de 2025 e julho de 2026, o menor patamar da série histórica iniciada em 1988.

Campello também lembrou a retomada do Fundo Amazônia em 2023, após a paralisação da aprovação de novos projetos, e citou a exposição aberta em Oslo, na Noruega, como uma forma de prestar contas aos doadores e apresentar ao público os resultados das iniciativas apoiadas pelo Fundo.

Humberto Freire de Barros, diretor de Amazônia e Meio Ambiente da PF, representou o diretor-geral da instituição. Ele relembrou que a crise humanitária dos Yanomami evidenciou, em 2023, a necessidade de uma resposta integrada. Naquele ano, o governo federal retomou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), criou a Diretoria da Amazônia e Meio Ambiente da PF e instituiu o Plano Amas. Freire defendeu a continuidade dos investimentos em ações de segurança pública voltadas ao combate aos crimes ambientais.

Cadeia do ouro e impactos do mercúrio

“Cadeias produtivas certificadas são cada vez mais importantes”, afirmou Freire de Barros. O diretor destacou que, além de subsidiar investigações, a análise pericial da procedência do ouro pode fortalecer o mercado legal. Monteiro também apontou que os exames podem dar mais segurança à verificação da origem do metal destinado à exportação.

Representante do MMA na cerimônia, o secretário nacional de Meio Ambiente Urbano, Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental, Adalberto Maluf, destacou a necessidade de combinar o rastreamento do ouro com o monitoramento da contaminação por mercúrio. Ele chamou a atenção para os efeitos do garimpo ilegal sobre rios, peixes e a saúde de populações indígenas e ribeirinhas. Maluf também citou a 6ª Conferência das Partes da Convenção de Minamata sobre Mercúrio. Na reunião, realizada em 2025, os países decidiram aprofundar o estudo de como a transparência e a certificação na cadeia do ouro podem reduzir o uso de mercúrio.

Maluf também ressaltou que rastrear a origem do metal ajuda as investigações a chegar a quem financia o garimpo ilegal. “Esse laboratório vai ser um marco muito importante”, afirmou, ao defender a integração entre a perícia, a fiscalização e as ações de saúde e meio ambiente.