Teve início nesta terça-feira (9), na sede do Instituto Nacional de Criminalística (INC/DITEC/PF), em Brasília, o III Seminário APCF, com o tema “Inteligência Artificial e o Futuro da Persecução Penal”. Realizado pela Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) e pela Fundação Justiça pela Ciência, o evento reuniu cerca de 200 participantes, entre público presencial e online, para debater os impactos da inteligência artificial na produção da prova técnica e no sistema de Justiça.

A abertura foi marcada pela assinatura do ato de formalização da criação do Laboratório de Inteligência Artificial Aplicada à Criminalística do Instituto Nacional de Criminalística. A iniciativa reforça a atuação da criminalística federal no desenvolvimento de soluções tecnológicas voltadas ao uso responsável, seguro e tecnicamente qualificado da inteligência artificial em exames periciais.

Em sua fala, o presidente da APCF, perito criminal federal Marcos Camargo, destacou o papel institucional da entidade na promoção de debates, ações de capacitação e iniciativas voltadas ao fortalecimento da perícia criminal. Segundo ele, a Associação, em parceria com a Polícia Federal, a DITEC, o INC e a Fundação Justiça pela Ciência, tem ampliado sua atuação na realização de eventos técnicos e científicos voltados à criminalística e à persecução penal.

Camargo também chamou atenção para a necessidade de inserir a perspectiva forense no debate público sobre inteligência artificial. Para o presidente da APCF, as discussões sobre regulação da IA ainda exploram pouco os impactos da tecnologia sobre a produção da prova, a persecução penal e a atividade pericial.

“É importante que a perícia criminal federal some voz a esse processo, contribuindo para a construção de um caminho ético, responsável e tecnicamente qualificado para o uso da inteligência artificial”, afirmou. Para Camargo, o seminário deve produzir subsídios relevantes para aprimorar o debate junto ao Congresso Nacional, ao sistema de Justiça e à sociedade.

Ainda durante a abertura, o perito criminal federal Itamar Almeida de Carvalho destacou que a criação do laboratório busca aproximar diferentes áreas da perícia criminal federal das ferramentas de inteligência artificial.

“O objetivo é reunir especialistas em inteligência artificial e peritos das áreas finalísticas, que conhecem profundamente os exames, as demandas e as necessidades de cada especialidade, para criar ferramentas capazes de tornar o trabalho pericial mais ágil, sem abrir mão da qualidade e da confiabilidade dos resultados”, afirmou.

O perito criminal federal Mateus Polastro ressaltou que a inteligência artificial já faz parte do cotidiano de diferentes setores, mas precisa ser tratada com atenção especial no contexto da perícia e da Justiça. Para ele, o seminário ocorre em um momento importante, justamente quando a criminalística federal se organiza para discutir critérios, limites e possibilidades de uso da IA em exames periciais.

“Nós, como peritos criminais federais e participantes do sistema de Justiça, precisamos olhar para a IA com outros olhos. Ela pode ser uma ferramenta de produtividade, mas é preciso conhecer a ferramenta que se tem nas mãos”, destacou. Polastro também lembrou que a IA não resolve todos os problemas e que cada solução deve ser avaliada de acordo com sua finalidade, estratégia, limitações e riscos.

O diretor do Instituto Nacional de Criminalista, Carlos Eduardo Palhares, que também representou a Diretoria Técnico-Cientifica da Polícia Federal e a Direção-Geral da Polícia Federal, destacou a importância de ferramentas tecnológicas capazes de ampliar a produtividade sem comprometer o rigor científico da atividade pericial. Em sua fala, ele lembrou que a criminalística trabalha sob a pressão crescente por respostas mais rápidas, mas que o tempo da ciência e da técnica precisa ser respeitado.

Palhares afirmou que a inteligência artificial pode contribuir para a construção de “atalhos seguros” no trabalho pericial, desde que utilizada com método, responsabilidade e validação adequada. O diretor do INC também ressaltou que a inovação deve estar a serviço da qualidade da prova técnica e do fortalecimento da atuação da Polícia Federal.

Programação aborda desafios da IA para a prova técnica

A programação do primeiro dia do evento terá, ainda, aula magna do perito criminal federal Arnaldo Gomes dos Santos, ex-Oficial de Estratégia e Alcance em Crimes Cibernéticos da Interpol, com o tema “A fronteira da verdade: a prova material na era da Inteligência Artificial e do crime sintético”.

O III Seminário APCF segue até a quarta-feira (10), com atividades voltadas ao público interno da Polícia Federal, incluindo workshop estratégico sobre o impacto social da IA na segurança pública e o showcase “Forensic Pitch”, mostra de projetos desenvolvidos por servidores de todo o Brasil com o uso de inteligência artificial.