Uma pesquisa com a participação da perita criminal federal Diana Vilas Boas, no Instituto Nacional de Criminalística (INC), em Brasília, busca ampliar as informações disponíveis para a identificação humana. O estudo investiga o uso do DNA para estimar características como cor da pele, dos olhos e dos cabelos, além da idade.

A equipe avançou no desenvolvimento e na adaptação de protocolos para extrair DNA de amostras de sangue, osso e pele de pessoas falecidas. Segundo as pesquisadoras, os procedimentos permitiram obter material em quantidade adequada para a etapa de sequenciamento, necessária à continuidade dos estudos.

A aplicação futura dessas ferramentas poderia complementar o trabalho pericial em casos como o encontro de ossadas, quando parte das características físicas já não pode ser observada. “Com isso, a gente agregaria informações às análises antropológicas que já são feitas hoje em dia”, explica Diana.

De natureza acadêmica, o projeto busca desenvolver métodos para auxiliar a identificação humana, sem estabelecer relações entre características físicas ou genéticas e comportamentos ou propensão à prática de crimes. A pesquisa não utiliza dados dos bancos de perfis genéticos criminais nem amostras coletadas para alimentá-los. Nesta etapa, as amostras de pessoas falecidas foram obtidas para o estudo, com o consentimento dos familiares.

Cooperação científica

O projeto reúne a Polícia Federal, a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, e o Instituto Médico Legal (IML) de Goiânia. A parceria permite testar marcadores genéticos desenvolvidos por pesquisadores da USP e comparar sua aplicação em amostras de pessoas vivas e falecidas.

A doutoranda Valéria Miranda Amorim, do Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal da UnB, explica que a pesquisa pretende incluir também a estimativa de estatura. Para ela, a colaboração aproxima a formação acadêmica das possibilidades de aplicação na perícia. “Aqui na Polícia Federal, a gente está tendo a oportunidade de aplicar esse nosso conhecimento científico de forma prática”, afirma.

A orientação acadêmica de Diana reúne os professores Silviene Fabiana de Oliveira, do Laboratório de Genética Humana da UnB, e Celso Teixeira Mendes Júnior, do Laboratório de Pesquisas Forenses e Genômicas da USP, em Ribeirão Preto.

Desafios no laboratório

A etapa de trabalho atual foi iniciada em maio de 2026 e envolveu a coleta de amostras no IML de Goiânia, com o consentimento dos familiares das pessoas falecidas. O acesso a diferentes tecidos permitiu à equipe trabalhar com materiais cuja obtenção seria mais difícil em pessoas vivas, como ossos e pele.

Um dos desafios foi preparar essas amostras para o sequenciamento por leituras longas, da Oxford Nanopore, que exige DNA com integridade e quantidade adequadas. Os métodos inicialmente utilizados para tecidos de pessoas vivas não produziram resultados satisfatórios em parte das amostras, o que levou à revisão dos procedimentos de extração.

“Nós precisamos testar novos protocolos, adaptar os existentes, até chegar a protocolos que de fato entregaram uma boa quantidade de DNA”, relata a estagiária Aryane Marques dos Reis, do Serviço de Perícias em Genética Forense (SEPGEF). Ela participou dessa etapa e foi recentemente aprovada no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PIBITI), do CNPq, no qual desenvolverá um trabalho vinculado à pesquisa.

Estrutura e próximos passos

A execução do projeto também dependeu da ampliação da estrutura do laboratório. Segundo Diana, equipamentos foram adquiridos em 2025 com recursos de emenda parlamentar obtidos com o apoio da assessoria parlamentar da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF). A Polícia Federal financiou a compra dos reagentes, enquanto diferentes setores da instituição contribuíram com insumos e com o pré-processamento das amostras de ossos.

A estrutura da PF foi utilizada também no transporte de reagentes da Oxford Nanopore até a USP de Ribeirão Preto. A Coordenação de Aviação Operacional permitiu aproveitar um voo já programado para o interior de São Paulo para levar os materiais, descritos por Diana como caros e sensíveis.

Com a conclusão da etapa de extração, a equipe se prepara para o sequenciamento do material genético. O estudo prevê ainda o uso de amostras de mucosa oral. Segundo Valéria, os resultados deverão ser publicados para que outros pesquisadores possam dar continuidade ao desenvolvimento das técnicas.

A perspectiva de longo prazo é reunir, a partir do DNA de um fragmento de tecido de origem desconhecida, informações que componham um “retrato molecular”. Diana ressalta que esse objetivo ainda está distante, pela complexidade das características envolvidas. “Mas a gente está dando os primeiros passos, caminhando nessa direção”, afirma.